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Bairro do Quilombo

Das raízes às histórias

Por Walkyria Ferraz

“Ao Deus Pai criador, esta raça esta cor. Cada negro que luta pelo fim do racismo, meu sangue em batismo – oferecei. Pão, comida escassa. Vinho, vício, cachaça. Ao Deus de tantos nomes. Negros, brancos, homens livres esta fé sempre tive – oferecei. Negra história negada. Toda dor suportada. Preto, velho, Yayá. Negra bela raiz este povo feliz – oferecei. Leite de tanto nome. Negro filho reclama. Quilombolas guerreiras. Na cidade e na roça esta festa que é nossa – oferecei”.

E foi assim, como a letra da música “Canto do Ofertório”, recitada alegremente pela Congada de São Benedito, que um dos bairros mais antigos do município de São Bento do Sapucaí foi aos poucos construído.

Uma comunidade unida, onde os moradores tem orgulho da sua história. História essa bonita, de luta, fé e superação. Remanescente dos quilombos e com identidade étnica. Com uma trajetória antiga marcada desde o chão de terra até as belas festas, rico artesanato e natureza preservada.

O Bairro do Quilombo, hoje destino certo para quem visita a Estância Sambentista, encanta desde o início, ao atravessar a ponte iluminada que liga o centro da cidade ao Bairro. Logo, a estrada comprida permite a visualização de belas paisagens e do Monumento Natural Estadual Pedra do Baú. Ao chegar à comunidade aconchegante, o pátio gramado ao meio e a bela Igreja da Imaculada Conceição, datada de 1805 e construída em Adobe, são instantaneamente notados e trazem charme à vila.

Senhoras sentadas nas calçadas, crianças descalças correndo atrás da bola, pessoas andando de bicicleta e senhores com cigarro de palha na boca constroem o cenário de calmaria e sossego prevalecente no local.

Pela riqueza nas histórias e perseverança, o bairro possuí características ímpares. Para comemorar, em grande estilo, a libertação dos escravos – data local tão relevante, a Festa do 13 de Maio oferece, através da iniciativa da “matriarca” do Bairro Luzia Maria da Cruz, a “Dona Luzia”, um farto almoço gratuito para moradores e visitantes. Nesta festa a paixão e o entusiasmo pelo seu povo abrilhantam os moradores.

Preservando a cultura do Bairro, a Congada de São Benedito traz nas letras, nos ritmos, nos instrumentos e nas roupas – formadas por chitas, rendas, malhas, estopas, turbantes, faixas, chapéus e flores – as tradicionais histórias de um povo batalhador e determinado. Foi “Dona Luzia” que trouxe a congada para o bairro, aprendida com os avós escravos. A apresentação da Congada acontece nas festas do município, feiras e exposições que ressaltam as manifestações culturais de todo o Estado de São Paulo. “Nós amamos o Bairro e lutamos para que a história, a cultura e as tradições permaneçam nele. Ensinei a Congada aos meus filhos e hoje passo aos meus netos. É gratificante”, conta Dona Luzia.

E é com contos e causos que as pessoas são recebidas no Ateliê do renomado escultor – e diga-se de passagem, “memória viva local” – Ditinho Joana. Nos pedaços inteiriços de madeira, Ditinho vai dando forma ao entalhar o cotidiano do homem do campo – tema principal de seu trabalho. Como o Bairro, cada escultura tem uma história. Nomes e rimas dão vida às peças, que encantam na riqueza dos detalhes. Como símbolo de seu trabalho apresenta-se o sapatão gasto do trabalhador rural, retratado em chaveiros e em peças maiores.

Dando continuidade ao rico artesanato – já marca do local – 6 artesãs do Bairro, através do incentivo do escultor Ditinho Joana, começaram a fazer peças artesanais para sustentar a família. “No começo não sabíamos muito sobre artesanato, tínhamos uma vaga noção”, conta Dona Maria Helena – artesã local. Aos poucos, através da ajuda da Prefeitura e de cursos do SENAR e SEBRAE-SP foram se aprofundando e descobrindo novas formas de realizar um artesanato diferente com a palha da bananeira – fruto-destaque do município. “Não sabíamos desidratar a palha de bananeira e com muito custo fomos aprendendo”.

Aos poucos, mais e mais moradores foram se interessando pelo artesanato, aprendendo, estudando e se capacitando. “O Ditinho Joana nos dizia que não poderíamos ter um artesanato igual aos dos outros, que precisávamos resgatar o que aprendemos com a nossa família, avós, pais, e assim faríamos algo diferente”, lembra a artesã Alexandra.

Ao notar a persistência dos artesãos e a dificuldade de realizar os trabalhos e vendê-los, sem um ponto fixo, o empresário José Antônio de Abreu doou um terreno no bairro para que a Prefeitura pudesse construir um centro artesanal. Foi então que em janeiro de 2004, artesãos, Prefeitura e empresários inauguraram o espaço “Arte no Quilombo”.

Hoje, a Associação de Artesãos “Arte no Quilombo” possui mais de 80 associados e é referência de peças e produtos na cidade e na região por trabalhar com palha de bananeira e de milho, bambu, revestimentos, entre outros. “Somos muito contentes e agradecidos. E sempre procuramos aprender mais. Dizer que foi fácil é mentira, mas batalhamos muito e hoje, quando somos elogiados em feiras como no “Revelando São Paulo”, vemos que valeu a pena”, ressalta a artesã Maria Helena.

Hoje no Bairro do Quilombo, existe o Complexo Turístico “José Antônio de Abreu”, que engloba: Arte no Quilombo; Ateliê Ditinho Joana; Quadra de Esportes; Creche Municipal e Escola Municipal.

Além da parte central do bairro, existem trilhas que as pessoas podem se aventurar a pé, de bicicleta, de carro ou de moto e curtir um visual lindo com árvores nativas e animais silvestres. Além disso, o Bairro do Quilombo faz divisa com outros 4 bairros: Paiol Grande, Coimbra, Córrego da Foice e Sertãozinho.

Cultura, tradição, histórias, contos, causos, alegria, festa, batalha, persistência…são palavras muito citadas nas conversas com os moradores e que traduzem por inteiro o Bairro do Quilombo. São por esses e tantos outros motivos que a vila cravada nas montanhas de São Bento do Sapucaí merece por todo o seu feito um grande destaque.

“…Quilombolas guerreiras. Na cidade e na roça esta festa que é nossa – oferecei”.

Arte no Quilombo: artenoquilombo04@gmail.com ou (12) 3971-2669.

Ateliê Ditinho Joana: ditinhojoana@hotmail.com ou (12) 3971-2579.

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